Japão e Índia ampliaram a cooperação econômica e tecnológica em uma estratégia para diversificar cadeias de suprimentos e reduzir a dependência da China. Tóquio anunciou a meta de investir 10 trilhões de ienes, cerca de 70 bilhões de dólares, na Índia na próxima década.
A aproximação começou a ser construída nos anos 1980, com investimentos industriais pioneiros, e ganhou força desde a chegada de Narendra Modi ao cargo de primeiro-ministro indiano, em 2014. A relação passou a ser descrita como uma parceria estratégica e global especial.
Entre os projetos está o primeiro trem-bala da Índia, que ligará Mumbai e Ahmedabad. A obra está em construção desde 2017 e utiliza tecnologia japonesa.
Cadeias de suprimentos e tecnologia
Para Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec DF, a estratégia tem um componente de contraponto à China, mas é principalmente voltada à diversificação. Japão e Índia definiram como prioridades semicondutores, minerais críticos, inteligência artificial e materiais avançados.
A Índia tem atraído investimentos por causa de sua população jovem, de sua capacidade de engenharia e de políticas de incentivo a setores estratégicos. O Programa PLI, implementado pelo governo indiano em 2020, oferece subsídios para áreas como semicondutores, eletrônicos e produtos farmacêuticos. A iniciativa atraiu empresas globais como a Apple.
A cooperação também prevê cadeias de suprimentos de chips consideradas mais seguras e independentes. No setor de minerais críticos, a Índia mapeia e explora depósitos em seu território, enquanto o Japão fornece tecnologias e especialistas para essas atividades.
Apesar da busca por alternativas, os dois países ainda dependem da China para grande parte dos minerais críticos usados na produção tecnológica e de insumos farmacêuticos. Em uma cúpula realizada em julho, Sanae Takaichi e Modi destacaram segurança econômica, resiliência energética e tecnologia como áreas prioritárias.
“O Japão não está investindo na Índia simplesmente porque a economia chinesa desacelerou”, afirmou Galvão. Segundo ele, a desaceleração chinesa reforça uma aproximação construída ao longo dos anos, mas não é sua causa principal.
O Fundo Monetário Internacional projeta crescimento de 4,6% para a China em 2026, enquanto a Índia cresce acima de 6%. A China enfrenta crescimento menor, demanda doméstica fraca, problemas no setor imobiliário e pressões deflacionárias.
Complementaridade industrial
O Japão reúne capital, tecnologia e experiência em equipamentos, materiais e componentes para semicondutores, além de uma população em rápido envelhecimento. A Índia oferece espaço para investimentos, mão de obra jovem, capacidade de engenharia e um mercado amplo.
A parceria já inclui a unidade da Renesas com a CG Power e a cooperação da Tokyo Electron com a Tata Electronics. A expectativa é que a estratégia forme um novo polo em áreas específicas, como packaging, testes, chips automotivos e industriais, materiais e equipamentos.








