A divergência entre José Sergio Gabrielli e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, expõe a falta de definição pública sobre como o governo de Luiz Inácio Lula da Silva pretende lidar com as contas públicas em uma eventual reeleição.
Gabrielli, coordenador do programa econômico de Lula, classificou o diagnóstico de crise fiscal como “fake news” e disse que “Não há nenhum motivo para pânico”. As declarações foram feitas no fim de agosto, depois de o Banco Central informar que a dívida havia alcançado 82,5% do PIB em julho, o maior nível desde abril de 2021, durante a pandemia da Covid-19.
Divergências sobre gastos e juros
O ex-presidente da Petrobras, que comandou a empresa entre 2005 e 2012, defende uma presença maior do Estado na economia. Em declarações recentes, apoiou a expansão dos gastos públicos, o aumento de impostos sobre os mais ricos, o fortalecimento dos bancos públicos e medidas de controle de capitais e do câmbio.
Gabrielli também rejeita propostas para limitar aumentos reais do salário mínimo ou alterar pisos constitucionais de saúde e educação. Em entrevista à Bloomberg, na terça-feira (2), afirmou que uma taxa de 14% está entre os principais fatores do aumento da dívida e defendeu a redução do custo do financiamento.
Durigan, por outro lado, afirmou que um eventual quarto mandato de Lula exigiria a revisão de despesas obrigatórias e novas restrições para conter os gastos. O ministro disse que pretendia “melhorar o fiscal, custe o que custar”, mas não comentou a declaração de Gabrielli sobre a crise fiscal.
Em junho, o presidente do PT, Edinho Silva, havia dito que as posições de Gabrielli eram opiniões pessoais e que as propostas ainda seriam analisadas pelo partido e por Lula. No mês seguinte, após novas declarações do coordenador, Durigan rejeitou o controle da movimentação de capitais e afirmou que as propostas não tinham sido validadas pela legenda, pela Fazenda ou pelo presidente.
Dúvidas entre investidores
Marcelo Faria, do Instituto Liberal de São Paulo (Ilisp), afirmou que a campanha apresenta um compromisso genérico com o equilíbrio fiscal, mas não detalha as medidas. Segundo ele, o programa entregue ao TSE mantém o arcabouço fiscal, amplia transferências de renda e prevê aumento real do salário mínimo.
Carlos Henrique, assessor estratégico da Freex Corretora de Câmbio, disse que o programa aposta no crescimento e na arrecadação futura, sem apresentar reformas para conter despesas. Alexandre Manoel, da Global Analytics, afirmou que Lula é quem define os rumos da economia e que não vê indícios de um ajuste estrutural.
A pressão sobre o financiamento público aumentou em junho, quando o Tesouro cancelou um leilão de NTN-Bs. Na tentativa seguinte, ofertou 150 mil papéis, mas vendeu apenas 34,6 mil dos 50 mil títulos com vencimento em 2033.








